Roteamento automático de modelos: efeito sobre custo e falha operacional
Na janela analisada, todo o volume veio da própria operação interna da plataforma, não de conversas de clientes. O contexto médio por turno foi de 471.750 tokens de entrada — um perfil muito diferente do de um atendimento comum.
A economia aparente desta versão (70,8% a 98,1%) descreve o custo de a plataforma operar a si mesma e não é generalizável para o uso real da plataforma. A hipótese segue não confirmada em tráfego de cliente.
Status: análise observacional preliminar, em janela única de 7 dias. O achado mais importante desta versão é uma limitação de validade externa, não uma confirmação da hipótese.
Resumo
Contexto — Plataformas de agentes autônomos compõem especialistas a partir de prompt, skills e tools; a escolha do modelo de linguagem que atende cada turno é, crescentemente, automatizada por um resolvedor em múltiplos níveis de precedência.
Objetivo — Quantificar, em um ambiente de produção real, se o roteamento automático de modelo reduz o custo por conversa sem aumentar a falha operacional do serviço, em relação a um baseline de modelo único fixo.
Métodos — Estudo observacional sobre telemetria auditada de turnos, em janela rolante de 7 dias. Unidade de análise: conversa. Desfecho primário: custo por conversa. Gate de não-inferioridade (Δ = 2 pp): falha operacional do serviço, por dois sinais independentes — turnos sem saída e conversas com erro associado. Baseline: contrafactual sintético por recálculo de custo sob um modelo forte único, com análise de sensibilidade multi-baseline.
Resultados — Na janela, o custo contrafactual de modelo único ficou entre 3,4 e 52,2 vezes o custo observado no braço roteado — economia aparente de 70,8% a 98,1%. A validade externa é limitada pelo perfil de tráfego (operação interna, contexto muito grande).
Conclusão — O método (recálculo contrafactual de custo + gate de não-inferioridade validado contra o formato real da telemetria) é aplicável e revela economia aparente de custo; a generalização para tráfego de cliente permanece em aberto, dependente de uma janela com conversas reais de diferentes organizações.
Palavras-chave: agentes autônomos; roteamento de modelos; custo de inferência; large language models; observabilidade.
1. Introdução
1.1 Problema
Agentes autônomos baseados em large language models (LLMs) têm custo de inferência variável e material em produção. Em uma plataforma como a Lab019, um mesmo especialista pode ser atendido por modelos de custo unitário muito distinto — de um modelo compacto a um modelo de raciocínio caro — em função da decisão de roteamento tomada turno a turno. A pergunta de engenharia econômica que este trabalho ataca é direta: a automação dessa escolha entrega custo menor do que a alternativa simples de fixar um único modelo forte, sem piorar o serviço?
1.2 Objeto de estudo
A plataforma é tratada como um único agente (o software). Os especialistas — configurações de prompt, skills e tools — são o contexto fixo; a variável de interesse é o modelo selecionado pelo resolvedor, que decide em cinco níveis de precedência: escolha explícita do cliente, fixação da conversa, padrão da organização, padrão do especialista e padrão da plataforma.
1.3 Hipótese
H₁: o roteamento automático reduz o custo médio por conversa em relação ao baseline de modelo único, mantendo não-inferioridade (Δ = 2 pp) na taxa de falha operacional do serviço.
Por que "falha operacional" e não "qualidade" de forma ampla: a telemetria disponível não contém sinal de sucesso de tarefa (ver Seção 2.6). A hipótese é restrita à dimensão de qualidade observável em produção.
1.4 Contribuições
- Operacionalização de variáveis a partir de telemetria nativa, sem instrumentação adicional.
- Baseline contrafactual reprodutível, com os custos unitários registrados na janela do estudo e análise de sensibilidade multi-baseline.
- Método de avaliação de roteamento em produção sem rótulos de tarefa, com a distinção explícita entre falha operacional (N1/N2) e sucesso de tarefa (N3).
- Achado metodológico transferível: proxies de qualidade precisam ser validados contra o formato real da telemetria — o gate original era vazio (sinais que nunca coexistem), e a unidade "conversa" exige auditar a semântica do identificador.
1.5 Trabalhos relacionados
A literatura de roteamento de LLMs converge na formulação que este trabalho adota: rotear cada consulta ao menor modelo capaz, mantendo a qualidade do modelo forte. O baseline canônico — "um único modelo para todas as tarefas" — foi formalizado por Shnitzer et al. [1]. Dois trabalhos seminais estabelecem o resultado que se busca replicar: RouteLLM [9] (roteador por preferência humana, custo reduzido >2×) e FrugalGPT [10] (cascata iguala o melhor LLM individual com até 98% de redução de custo).
A linha de cascatas tem fundamento teórico sólido: mistura de representações de pensamento [11] (ICLR'24, ~40% do custo de um modelo de fronteira), aprendizado online com no-regret [12] (ICML'24, até 90% de corte), C3PO [13] (predição conformal, garantias de orçamento sem rótulos) e UCCI [14] — que avalia cascata calibrada em produção real (75k consultas, 31% de corte, IC [27%, 35%]). No domínio multi-agente: ProgRouter [15] (EMNLP'26), CASTER [16] (até 72,4% de corte) e COREA [17] (EACL'26). A ressalva teórica de Zeng e Jing [8] — controle ponto a ponto é forte demais, só o conjunto é viável — descreve exatamente o roteamento por especialista e nível de esforço desta plataforma.
Lacuna: quase toda a literatura mede qualidade por acurácia em benchmark ou LLM-as-a-Judge; não há estudo observacional com recálculo contrafactual de custo sobre telemetria nativa de uma plataforma de agentes em produção, explicitando o que é mensurável sem rótulos.
2. Métodos
2.1 Fonte de dados
Telemetria auditada de turno, mantida em janela rolante de 7 dias. Cada registro traz, entre outros: instante, identificadores de organização, conversa, mensagem e agente, o modelo pedido e o modelo efetivamente servido, o provedor, a base de custo, tokens de entrada, de saída e de raciocínio, custo em dólares, latência até o primeiro token e duração total, a origem da decisão de modelo e quantas vezes houve fallback de modelo.
Ausentes no registro: papel de quem fala, conteúdo de mensagem, avaliação do cliente, motivo de término e transferência para atendimento humano.
2.2 Unidade de análise e estrutura de erros
- Unidade primária: conversa; custo agregado por conversa.
- Suposição: turnos da mesma conversa são correlacionados → erros agrupados por conversa (ou efeitos mistos).
- Estratificação por agente obrigatória.
- Auditoria do identificador: a plataforma atribui o identificador de conversa por dois caminhos distintos, com semânticas de vida diferentes. Um deles é estável; o outro é reiniciado depois de um período de inatividade, e é esse — o curto — que faz uma mesma relação de turnos aparecer como conversas separadas. Na janela, 80,6% dos registros vinham do identificador estável e 19,4% do reiniciável. A taxa de conversas de um turno só foi de 29,0% no reiniciável e 95,5% no estável — a maior parte dessa diferença é real, mas parte é inflada pelo reinício por inatividade.
2.3 Variáveis
| Papel | Variável | Operacionalização |
|---|---|---|
| Desfecho primário | Custo por conversa | soma do custo em dólares dos turnos da conversa |
| Gate (a) | Turno sem saída | proporção de turnos sem tokens de saída |
| Gate (b) | Conversa com erro associado | conversas casadas com um registro de erro |
| Secundário | Latência | duração total e tempo até o primeiro token |
| Tratamento | Roteamento automático | decisão de modelo do especialista ou fixada na conversa |
| Controle | Baseline de modelo único | contrafactual sintético (Seção 2.4) |
"Sem tokens de saída" e "registro de erro" nunca coexistem no mesmo registro — são schemas diferentes. Foram tratados como dois sinais independentes.
Observação: a escolha de modelo feita à mão na configuração ficou fora da análise principal — nesse caso o custo não é atribuível ao roteador, e a falha tende a ser de infraestrutura, não de decisão.
2.4 Baseline sintético
custo_contrafactual = tokens_de_entrada × preço_de_entrada(M*)
+ tokens_de_saída × preço_de_saída(M*)
Os custos unitários de entrada e saída foram capturados da plataforma durante a janela analisada e versionados com os dados do estudo. Eles não são reproduzidos aqui, porque mudam ao longo do tempo.
Escolha do baseline (risco de cherry-picking): o "modelo forte" não é inequívoco — adota-se sensibilidade multi-baseline, com três modelos fortes de custo unitário distinto, e reporta-se a faixa.
2.5 Plano de análise
- Descritiva por origem da decisão de modelo e por especialista.
- Inferência primária: custo por conversa (roteado vs. cada baseline), com intervalo de confiança e erros agrupados por conversa.
- Não-inferioridade (Δ = 2 pp) das duas taxas de falha.
- Sensibilidade: baselines × premissas de custo unitário.
- Robustez: outliers.
- Exploratória: desfecho operacional.
2.6 Adequação da métrica de "sucesso"
| Nível | Métrica | Viabilidade no formato real |
|---|---|---|
| N1 — operacional | turnos sem saída + conversas com erro associado | VIÁVEL (gate, com correção) |
| N2 — desfecho operacional | turnos, conversas de um turno, erro associado, saída vazia | PARCIALMENTE VIÁVEL |
| N3 — sucesso de tarefa | LLM-as-a-Judge / benchmark | NÃO DISPONÍVEL |
A afirmação central é "reduz custo sem aumentar falha operacional" — não "sem degradar qualidade".
3. Resultados
3.1 Resultados observados
Volume e perfil: 888 turnos, 356 conversas — todo o volume vindo da operação interna da plataforma. Média de 471.750 tokens de entrada por turno.
Braço de tratamento (decisão do especialista ou fixada na conversa): 870 turnos, 355 conversas, 410.422.539 tokens de entrada, 7.465.036 de saída e 472.715 de raciocínio.
Comparação de custo (contrafactual):
| Baseline forte único | Custo relativo (observado = 1) | Economia aparente |
|---|---|---|
| Modelo C | 3,4× | 70,8% |
| Modelo A | 16,7× | 94,0% |
| Modelo B | 52,2× | 98,1% |
Síntese interpretativa (não é achado): a economia é dominada pela diferença de custo unitário de entrada sobre contexto gigante, não pelo mecanismo "rotear fácil vs. difícil" da literatura. O número é real, mas mede um fenômeno diferente daquele de RouteLLM/FrugalGPT.
Descritiva por origem da decisão de modelo:
| Origem da decisão | turnos | conversas* | turnos sem saída | mediana de duração (ms) |
|---|---|---|---|---|
| padrão do especialista | 829 | 354 | 6,27% | 69.993 |
| fixada na conversa | 41 | 14 | 0,0% | 21.775 |
| modelo escolhido à mão na configuração | 18 | 4 | 27,8% | 16.388 |
| padrão da organização / da plataforma | 0 | 0 | — | — |
* conversas não exclusivas entre as origens: 13 conversas aparecem nas duas primeiras linhas ao mesmo tempo. Por isso a soma das colunas excede as 356 conversas do total — a coluna de conversas é uma contagem por origem, não uma partição.
Taxas de falha observadas (critério definido em Δ = 2 pp; o teste formal de não-inferioridade está pendente — ver Seção 3.2):
- Turnos do braço sem tokens de saída: 52/870 = 5,98% — todos na origem "padrão do especialista"; na origem "fixada na conversa", 0%.
- Conversas do braço com pelo menos um registro de erro: 14/355 = 3,94%.
- Desagregado: 6,27% na origem "padrão do especialista" contra 0,0% na origem "fixada na conversa" — o braço não é homogêneo.
Semântica do identificador de conversa (auditoria):
- Formatos: identificador curto em 19,4%; identificador de vida longa em 80,6%. Zero truncamento.
- Conversas de um turno: 29,0% (curto) contra 95,5% (longo).
- Turnos por conversa: no curto, mediana 3 (p90 entre ~21 e 30, máximo 59); no longo, mediana 1 (p90 1, máximo 30).
3.2 Resultados planejados (análise definitiva — pendente)
- Tabela 1 — descritiva por origem da decisão de modelo (preenchida na Seção 3.1).
- Tabela 2 — custo por conversa com intervalo de confiança e p-valor (requer granularidade por conversa com bootstrap e agrupamento — pendente).
- Tabela 3 — teste de não-inferioridade formal (Δ = 2 pp) — pendente.
- Tabela 4 — sensibilidade baselines × premissas de custo unitário.
- Tabela 5 — desfecho operacional (N2), desagregado por formato do identificador de conversa.
4. Discussão
- Validade externa (a conclusão mais importante desta versão): a janela não contém tráfego de cliente final — só a operação interna, com contexto gigante (~471k tokens por turno). A economia aparente (70,8% a 98,1%) não é generalizável para o uso real da plataforma. A hipótese permanece não confirmada em tráfego de cliente.
- Mecanismo: a economia observada vem da diferença de custo unitário de entrada sobre contexto gigante, não do roteamento por dificuldade. É um fenômeno distinto da literatura de cascatas. Reconhecer isso evita overclaim.
- Robustez metodológica: o desenho (contrafactual multi-baseline + gate de não-inferioridade validado contra o formato real da telemetria) é reutilizável, e revelou dois defeitos latentes que teriam invalidado o estudo: o gate N1 vazio e a semântica dupla do identificador de conversa.
- Limitações: (i) janela única de 7 dias; (ii) uma única organização; (iii) baseline contrafactual (os tokens do modelo forte não são reais); (iv) qualidade restrita a N1/N2; (v) identificador de conversa com dois caminhos, sendo um reiniciado por inatividade — o que infla a taxa de conversas de um turno.
- Trabalhos futuros: (a) re-executar em janela com tráfego real de múltiplas organizações; (b) separar a operação interna do tráfego de cliente como análise de sensibilidade; (c) baseline controlado ao vivo; (d) instrumentar fim de sessão; (e) métrica N3 (LLM-as-a-Judge).
Referências
- T. Shnitzer et al., "Large Language Model Routing with Benchmark Datasets," arXiv:2309.15789, 2023.
- R. Zhuang et al., "EmbedLLM: Learning Compact Representations of Large Language Models," arXiv:2410.02223, 2024.
- W. Jitkrittum et al., "Universal Model Routing for Efficient LLM Inference," arXiv:2502.08773, 2025.
- D. Sikeridis, D. Ramdass, P. Pareek, "PickLLM: Context-Aware RL-Assisted Large Language Model Routing," Workshop SEAS, AAAI 2025, arXiv:2412.12170, 2024.
- K. Huang et al., "UniScale: Adaptive Unified Inference Scaling," ICML 2026, arXiv:2605.30898, 2026.
- S. Lee et al., "Confidence-Guided Stepwise Model Routing for Cost-Efficient Reasoning (STEER)," arXiv:2511.06190, 2025.
- W. Si, I. Lee, O. Bastani, "Policy-Guided Stepwise Model Routing for Cost-Effective Reasoning," arXiv:2605.06116, 2026.
- H. Zeng, B. Jing, "A note on conditional PAC-efficient reasoning in large language model routing," arXiv:2512.03057, 2025.
- I. Ong et al., "RouteLLM: Learning to Route LLMs with Preference Data," arXiv:2406.18665, 2024.
- L. Chen, M. Zaharia, J. Zou, "FrugalGPT: How to Use Large Language Models While Reducing Cost and Improving Performance," arXiv:2305.05176, 2023.
- M. Yue et al., "Large Language Model Cascades with Mixture of Thoughts Representations for Cost-efficient Reasoning," ICLR 2024, arXiv:2310.03094, 2023.
- L. Nie et al., "Online Cascade Learning for Efficient Inference over Streams," ICML 2024, arXiv:2402.04513, 2024.
- A. Valkanas et al., "C3PO: Optimized Large Language Model Cascades with Probabilistic Cost Constraints for Reasoning," arXiv:2511.07396, 2025.
- V. Kotte, "UCCI: Calibrated Uncertainty for Cost-Optimal LLM Cascade Routing," arXiv:2605.18796, 2026.
- S. Li, A. M. Abdelmoniem, S. Wang, "ProgRouter: Online Progress-Guided Orchestration for Multi-Agent LLM Workflows," Findings of EMNLP 2026, arXiv:2608.25992, 2026.
- S. Liu et al., "CASTER: Breaking the Cost-Performance Barrier in Multi-Agent Orchestration," arXiv:2601.19793, 2026.
- C. Zhang et al., "Confidence-Calibrated Small-Large Language Model Collaboration for Cost-Efficient Reasoning (COREA)," EACL 2026, arXiv:2603.03752, 2026.
Estado desta versão
Feito: critério de não-inferioridade definido em 2 pontos percentuais; análise preliminar executada, com o caveat de validade declarado; proxy operacional validado; semântica do identificador de conversa auditada.
Em aberto: re-executar em janela com tráfego real de cliente e múltiplas organizações, para testar a hipótese de fato; captura de granularidade por conversa com bootstrap e agrupamento, para intervalo de confiança e p-valor formais; e separar a operação interna do tráfego de cliente como análise de sensibilidade.
Sobre este artigo
Estudo conduzido na Lab019 sobre a própria plataforma. Esta é a versão pública do texto, e é a mesma que vai para o repositório aberto de preprints: o que a análise usa vem de métricas agregadas de operação, e nenhum dado de cliente, de organização ou de conversa individual é publicado aqui.
Veja também
- Como a plataforma escolhe o modelo — os perfis de esforço e a precedência da decisão, do ponto de vista de quem configura
- Visão geral da plataforma